sábado, 23 de janeiro de 2021

Ah!, a velhice...



"Devo estar a ficar velho: as Paulas Cristinas têm mais de 20 anos, os  Brunos Miguéis já vão nos 15, as Kátias e as Sónias deram lugar a  Martas, Catarinas, Marianas. A maior parte dos polícias são mais velhos  do que eu. Comecei a gostar de sopa de Nabiças. A apetecer-me voltar  mais cedo para casa. A observar, no espelho matinal, desabamentos, rugas  imprevistas, a boca entre parêntesis cada vez mais fundos. A ver os  meus retratos de criança como se fosse um estranho. A deixar de me  preocupar com o futebol, eu que sabia de cor os nomes de todos os  jogadores do Benfica (…). A desinteressar-me dos gelados do Santini que o  Dinis Machado, de cigarrilha nas gengivas achava peitorais.

Se  calhar, daqui a pouco, uso um sapato num pé e uma pantufa de xadrez no  outro e vou, de bengala, contar os pombos do Príncipe Real que circulam,  de mãos atrás das costas como os chefes de repartição, em torno do  cedro. Ou jogar sueca, com colegas de boina, na Alameda Afonso Henriques  de manilha suspensa no ar, numa atitude de Estátua de Liberdade. Quando  der por mim, encontro o meu sorriso na mesinha de cabeceira, a  troçar-me, num copo de água, com 32 dentes de plástico. Reconhecerei o  meu lugar à mesa pelos frasquinhos dos medicamentos sobre a toalha, que  me farão lembrar as bandeiras que os exploradores antigos, vestidos de  urso como os automobilistas dos tempos heróicos, cravavam nos gelos  polares.

Devo estar a ficar velho. E no entanto, sem que me dê  conta, ainda me acontece apalpar a algibeira à procura da fisga. Ainda  gostava de ter um canivete de madrepérola com sete lâminas, saca-rolhas,  tesoura, abre-latas e chave de parafusos. Ainda queria que o meu pai me  comprasse na feira de Nelas, um espelhinho com a fotografia da Yvonne  de Carlo, em fato de banho, do outro lado. Ainda tenho vontade de  escrever o meu nome depois de embaciar o vidro com o hálito.

Pensando bem (e digo isto ao espelho), não sou um senhor de idade que
conservou o coração de menino. Sou um menino cujo envelope se gastou."

António Lobo Antunes

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Recomeça...

Se puderes

Sem angústia

E sem pressa.

E os passos que deres,

Nesse caminho duro

Do futuro

Dá-os em liberdade.

Enquanto não alcances

Não descanses.

De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,

Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.

Sempre a sonhar e vendo

O logro da aventura.

És homem, não te esqueças!

Só é tua a loucura

Onde, com lucidez, te reconheças...



Miguel Torga

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

A melhor maneira...

"Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.

Sentir tudo de todas as maneiras.
Sentir tudo excessivamente,
Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas
E toda a realidade é um excesso, uma violência,
Uma alucinação extraordinariamente nítida
Que vivemos todos em comum com a fúria das almas
O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas
Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos.
Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como várias pessoas,
Quanto mais personalidade eu tiver,
Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver,
Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas,
Quanto mais unificadamente diverso, dispersadamente atento,
Estiver, sentir, viver, for,
Mais possuirei a existência total do universo,
Mais completo serei pelo espaço inteiro fora.
Mais análogo serei a Deus, seja ele quem for (...) "

 
Álvaro de Campos

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Um momento inesquecível...

"O oceano transformava-se em prata dourada à medida que as cores volúveis se reflectiam nele, as águas encrespando-se e cintilando com a mudança de luz, uma visão gloriosa, quase como no princípio do mundo...
Sublime e mágico, o mistério inesperado de haver agora um mundo onde antes era o nada... e o mesmo mistério do irromper, pujante, do primeiro amor... clarividente, capaz de ver evidências nas mais gritantes disparidades!"

sábado, 18 de setembro de 2010

4º momento nicola

Um dia ainda fazemos das estrelas, a nossa luz de presença, e da areia molhada, o nosso leito aquecido...

3º momento nicola

Um dia vamos montar um cenário com coreagrafias românticas e a banda sonora, a sincronia das nossas respirações...

domingo, 29 de agosto de 2010

Californication

"não há uma forma fácil de dizer isto, por isso vou dizê-lo sem rodeios: conheci uma pessoa. foi um acidente, não estava à procura disto. uma autêntica tempestade. ela (ele) disse qualquer coisa, eu respondi. depois lembro-me de querer passar o resto da minha vida dentro daquela conversa. talvez ela (ele) seja a mulher (o homem) da minha vida. pelo menos é completamente louca (louco) e está sempre a fazer-me rir. (...) essa pessoa és tu. (...) não sei o que nos vai acontecer e não sei por que deves depositar alguma esperança em mim. mas... tu cheiras tão bem, como cheiram as casas, e fazes um café delicioso. isto tem de significar alguma coisa, certo?"



Californication